domingo, 16 de agosto de 2020

 O Stress e o Mergulho, da Flutuabilidade a Doença Descompressiva. Uma Revisão Bibliográfica.

 

Como mergulhadores somos expostos a situações e ambientes diversos que essa pratica engloba, normalmente experimentamos vários níveis e naturezas de fatores estressantes e suas consequências em nossa fisiologia. Em outras palavras, o stress está presente na maior parte de nossas experiências, não só de mergulho como de nosso cotidiano em si, desencadeando respostas boas e ruins em nosso comportamento como resposta a todas as situações que nos encontremos.

O estresse é o maior causador de situações de resgate e acidentes de mergulho. Emergências são geralmente o resultado de uma somatória de pequenos erros, e não um grande erro.

Reconhecer o estresse e lidar com ele no estágio inicial é um componente crítico na prevenção de acidentes de mergulho.

 

Tipos de Stress

O Stress, inicialmente descrito por Selye (1947), é um estado produzido dentro do organismo, sujeito a um estímulo conhecido como estressor (ameaça), ou como um “estado” produzido por uma síndrome específica (Síndrome de Adaptação Geral – SAG), incluindo mudanças dentro do sistema biológico.

Cada um tem uma tolerância diferente ao estresse, que dessa maneira pode ser positivo ou negativo. De acordo com Georgia Witkin- Lanoil, seja o estresse positivo ou negativo, ele é determinado por três fatores:

1.     Seu senso de escolha: Um desafio, quando desejado, é um estímulo. O estímulo é o motivo da excitação ou aventura. Ou, no caso de alguém aceitar um desafio produtivo, ele facilita a sensação de trabalhar melhor sob pressão. As exigências que não são escolhidas criam pressão indesejada e estresse negativo.

2.     Seu grau de controle: à medida que seu controle real ou percebido sobre uma situação diminui, seu estresse real ou percebido aumenta.

3.     Sua capacidade de antecipar as consequências: Adaptação e ajuste são mais difíceis quando as exigências e os resultados não são previsíveis. O inesperado e desconhecido cria estresse negativo.

 

O aumento do Stress, pode resultar num desempenho enfraquecido, devido ao número de mudanças fisiológicas e físicas. Dois tipos de Stress, encontrados nos mergulhadores, são os estressores psicológicos e fisiológicos.

Os estressores fisiológicos são normalmente relacionados com o ambiente, equipamento e condição física. Os estressores fisiológicos do ambiente, incluem, a temperatura da água, vida marinha, visibilidade e correntes. O Stress relacionado com o equipamento, é geralmente ligado a fraca adaptação do mergulhador ao equipamento a ser usado, e/ou um equipamento em más condições. Uma ineficiente habilidade em nadar, e uma falta de condição física, podem aumentar o stress, sentido subaquaticamente pelo mergulhador.

Os estressores psicológicos, encontrados pelos mergulhadores podem ser relacionados com a falta de competência e experiência. A pressão em terra, assim como, a pressão do tempo, são estressores psicológicos comuns (Sharr, 1989,p.68). Mergulhadores também sentem Stress, com pensamentos de possíveis perigos abaixo d’água. Outros estressores psicológicos podem não ser relacionados com o mergulho, (tensão familiar, excesso de trabalho, problemas interpessoais), mas podem ter influência no momento da imersão.

 

A fisiologia do stress

O Estresse é uma resposta bem humana ao tipo de excitação e estímulo que inicia o fluxo da adrenalina. O estímulo repentino que sentimos quando amedrontados, assustados ou ameaçados é chamado de síndrome de lutar ou fugir. A resposta lutar ou fugir desenvolveu-se nos primeiros humanos como meio de sobrevivência. Foi ela quem lhes deu o senso de correr do perigo ou lutar se encurralados.

Os humanos modernos têm uma resposta de lutar ou fugir altamente desenvolvida. Alguns de nós podem ter sentido uma descarga de adrenalina antes de fazer alguma coisa que não colocasse sua vida em risco, como por exemplo, pedir um aumento.

Wilson e Schneider (1981), reportaram que o Stress pode resultar em 1.400 respostas psico – químicas no corpo (Asterita, 1985). Muitas das respostas fisiológicas do Stress, são o esforço do corpo em resistir à mudança e manter a homeostase. A maioria das respostas fisiológicas identificadas, ocorrem no sistema nervoso autonômico, com mudanças nas respostas endócrinas.

 A resposta fisiológica mais comum ao Stress, inclui o aumento da pressão arterial, aumento do fluxo sanguíneo para ativar os músculos, diminuição do fluxo sanguíneo para os órgãos que não estão diretamente ligados ao assunto Stress, aumento das taxas do metabolismo celular, aumento da concentração da glicose sanguínea, aumento da metabolização da glicose nos músculos, aumento da energia muscular, aumento da atividade mental e aumento da coagulação sanguínea (Allen, 1986).

Sob condições normais, estas respostas ao Stress podem levar a efeitos positivos no mergulhador, aumentando a resposta física numa situação de perigo. No entanto, com o aumento do Stress, as respostas fisiológicas podem progredir para uma síndrome de pânico psicológico, resultando numa hiperventilação, tensão excessiva dos músculos e câimbra, aumento excessivo dos batimentos cardíacos e dificuldades respiratórias – que representam um estado negativo e destrutivo (Sharr, 1989, p. 66).

Como anteriormente mencionado, os dois degraus fisiológicos principais afetados pelo Stress são, o sistema nervoso autonômico e o sistema neuro – endócrino. O estímulo simpatético (Sist. Nerv. Aut.) do coração resulta no aumento do ritmo cardíaco, contrações vigorosas e metabolismo celular miocardial.

A vasoconstrição periférica, resultante do estímulo simpatético, redireciona o sangue para fora da periferia, proporcionando um aumento na circulação, para funções centrais do corpo (talvez este seja um relevante tipo I de D.D nas articulações e pele). No entanto, dentro do sistema respiratório, os efeitos resultantes do sistema nervoso simpatético, incluem a dilatação dos brônquios e a constrição dos vasos sanguíneos locais. Os efeitos acumulativos no aumento do ritmo cardíaco, dilatação dos brônquios e a constrição dos vasos sanguíneos locais (Pulmão), potencialmente diminuem a eficiência dos pulmões, em remover as bolhas de nitrogênio.

Podemos ver o impacto que o Stress tem nos parâmetros fisiológicos, revelando que diversos mecanismos de controle homeostático são afetados. Quando combinados, com os estresses normais do mergulho, uma diferença nesses mecanismos de controle, pode resultar no aumento da disposição do mergulhador, em ter uma doença descompressiva.

 

Sinais de alerta do stress

Alguns sintomas fisiológicos, podem incluir, a hiperventilação, pupilas dilatadas e tensão muscular. Podemos ainda citar, a irritabilidade, erros mentais simples, negligência, esquecimento, falta de vontade em completar as tarefas de preparação da imersão (Crotts, 1994).

Entre os primeiros sinais de alerta, estão: calor ou rubor, respiração ofegante, enjoo ou náusea, batimentos rápidos, transpiração e tensão muscular.

Estes sinais ocorrem por instinto. Quando os sinais aparecerem, pare e pense. Identifique a origem.

 

Prevenção do stress

Depois do estresse inicial se instalar, normalmente existe uma sequência comum de eventos que acontecem antes da instalação do pânico. Ao estar consciente destes eventos, começa a entender como o estresse pode evoluir para o pânico e como pará-lo.

Ele começa com um número qualquer de fatores estressantes que aumentam o consumo de energia do mergulhador. O crescente consumo de energia leva a um aumento nas frequências respiratória e cardíaca. Esse aumento nas taxas de energia/respiração/coração causa ansiedade quando combinado com o fator estressante original. Isso é conhecido como ciclo psicorrespiratório.

Se um fator estressante como uma corrente forte estiver presente, a ocorrência inesperada de um fator estressante adicional, como o aparecimento de um animal perigoso pode acelerar mais ainda a frequência respiratória até que o mergulhador sofra de uma acumulação de dióxido de carbono. Se o ciclo continuar, pode acontecer a hiperventilação, fazendo com que o mergulhador sinta como se estivesse sufocando, o que embaixo d'água quase sempre pode resultar em pânico ou no mínimo em uma perigosa corrida para a superfície.Uma subida sem controle pode resultar em doença descompressiva e/ou a um barotrauma pulmonar.

Cabe salientar que, as modificações da frequência respiratória e da dinâmica da mesma, levam a alterações da flutuabilidade antes estabelecida, pela variação de volume dos pulmões e por consequência do tórax. Essa modificação se torna mais um fator  estressante perante um cenário que também se retroalimenta. O estresse modifica a respiração, que leva a modificação da flutuabilidade, que aumenta assim o estresse.   

Ao estar ciente do ciclo, pode interrompê-lo a qualquer momento.

Simplesmente pare, descanse, avalie as causas e tome as atitudes para aliviá-las.

1.     Pare 2. Respire 3. Pense 4. Aja

 


 

Se for algo que não pode controlar, aborte o mergulho. Respirando profundamente e relaxando, pode retomar o controle da respiração e interromper o ciclo psicorrespiratório.

 

 1 - Lidando com o Stress antes do mergulho:

Fazer um Bom Planejamento de Mergulho:

  • Discuta os objetivos do mergulho.
  • Defina e concorde com os parâmetros do mergulho: profundidade, tempo de fundo, navegação, etc.
  • Discuta o histórico de treinamento e desempenho de habilidades.
  • Saiba como o equipamento do seu dupla funciona.
  • Planeje problemas ou mudanças: seja flexível e altere o planejamento conforme necessário.
  • Realize uma verificação completa antes de mergulhar.

 

2 - Lidando com o Stress durante o mergulho:

Use os Métodos Mais Fáceis de Entrada e Descida:

  • Use os métodos mais seguros e fáceis.
  • Siga as instruções dos profissionais de mergulho.
  • Equalize cedo e frequentemente.
  • Use referências visuais para subidas e descidas.


Monitore os Instrumentos:

  • Preste atenção à profundidade e consumo de gás.
  • Fique dentro dos limites não descompressivo.
  • Sempre retorne à superfície com uma reserva de gás respirável.


Fique atento ao Estresse Físico e Monitore as Limitações:

  • Conheça seus limites pessoais.
  • Reavalie sua condição com frequência durante o mergulho.
  • Evite ficar fatigado.

 

Mantenha Contato Constante com o seu Dupla:

  • Esteja sempre ciente da localização e condição do seu dupla.
  • Deixe-os saber que você está prestando atenção.
  • Monitore os padrões de respiração dos mergulhadores.
  • Imediatamente avise sobre quaisquer condições estressantes.

 

3 - Lidando com o Stress na fase final do mergulho:

Planeje Terminar seu Mergulho com 50 bar:

  • Preste atenção à profundidade e consumo de gás.
  • Sempre retorne à superfície com uma reserva de gás respirável.


Controle as suas Subidas:

  • Mergulhadores em pânico subirão o mais rápido possível.
  • Se o seu dupla está subindo rápido demais, entre em contato e diminua a velocidade de subida.
  • A garantia física pode ser tudo que precisa.


Pare aos 5 Metros por 3 a 5 minutos:

  • Sempre inclua uma parada de segurança.


Elimine qualquer Equipamento que Esteja Criando Arrasto:

  • O equipamento pode ser a razão pela qual um mergulhador fica estressado.
  • A remoção do equipamento reduzirá o arrasto e o esforço.
  • Perder equipamentos é melhor do que arriscar uma situação de pânico ou lesão.


Mantenha Flutuabilidade Positiva na Superfície:

  • Estabeleça flutuabilidade positiva para você e seu dupla.
  • Use o snorkel ou regulador, se necessário.
  • Mantenha contato com seu dupla.


Use o Método mais Fácil de Saída:

  • Saia da água usando o método mais fácil e seguro disponível.
  • Mantenha todos os seus equipamentos no lugar, a menos que seja instruído de outra forma.

 

Conclusão

O Stress pode ter efeitos positivos e negativos nos mergulhadores. Cada pessoa tem uma resposta diferente ao Stress. Os mergulhadores encontram o Stress, como resultado do ambiente, fatores físicos e/ou psicológicos.

Qualquer resposta fisiológica ao Stress, resultante dos mecanismos de controle homeostáticos, podem render ao mergulhador mais susceptível, uma doença descompressiva.

Uma pesquisa maior é necessária, para documentar estratégicas dos mergulhadores e a possível relação, entre causa/efeito do Stress, e a Doença Descompressiva.

Com a evolução de seus mergulhos, assim como de seus ambientes de mergulho, planeje realizar um Curso de Especialidade Diver Stress & Rescue. Você se sentira mais confiante e transmitirá essa confiança ao seu Dupla e a todos da equipe, fator que diminuirá em muito os gatilhos de stress citados durante todo o texto.



 

Referencia Bibliográfica:

- Curso de Especialidade Diver Stress & Rescue; SSI (Scuba Schools International).

- Revista Eletrônica Brasil Mergulho, artigo de medicina hiperbárica, “ Stress e doença descompressiva estão relacionados?”.

Escrito por Carlos Nelli Borges: Master Scuba Instructor pela PADI, Instrutor de Rebreather pela TDI (E.1211.I) e Instrutor Trainer Rebreather pela RAB (BR-133-02/98), possuindo mais de 1.200 mergulhos com rebreathers.



Por: Julio Cesar Dinardi.


Um comentário:

  1. Excelente artigo Julio!! Eu acho a atividade de mergulho extremamente rica no que se refere ao aprendizado do controle emocional. Além da qualidade de informações que recebemos nos cursos, como o diver stress e rescue por exemplo, a vivência do mergulhador desde o preparativo até o ambiente aquático trabalha muito bem nosso auto controle, a ansiedade, a superação....o mergulho, ao meu ver, é uma grande ferramenta para desenvolvermos nossa inteligência emocional.

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